Diário da minha primeira viagem sozinha.

A noite anterior foi difícil, acordei às 4h e sonhei que me apontavam uma faca e me raptavam para uma vila cheia de pessoas.
Os meus medos falavam comigo.
Saí do carro um pouco apreensiva, no meu peito uma sensação estranha, um misto de emoções.
Fiz a minha oração da gratidão diária e li a mensagem que tinha tirado para o dia, do livro da querida Isabel que era:
“Larga o escuro.
Larga esse escuro.
Ele está aí para veres estrelas.
Não te deixes consumir pela escuridão.
Move-te.
Devagar.
Só precisas de um passo hoje.
Amanhã damos mais outro.
Mas hoje é só um.
Anda!
Larga o escuro.
Tu não és ele!
Tu és tu!
Tão luminosa!
Não feches os olhos para ti mesma.
Tu és única!
Sim, tu!”
Conforme caminhava até à estação dos comboios, a confiança ia crescendo dentro de mim, como uma plantinha a brotar.
Claro que, muito ao estilo Miriam, ia perdendo o comboio, pois vi outro igual na linha ao lado e fui a correr pensando estar na linha errada. Mas correu bem. Entrei no comboio e uma sensação de felicidade percorreu o meu peito.
O primeiro passo tinha sido dado, eu estava a conseguir.
Quando cheguei vi tudo muito cinzento, escuro, desde o céu ao cenário, senti um leve aperto no peito, era uma imagem um pouco deprimente. Mas continuei para o metro.
Saí do metro e percebi, olhando à minha volta, que reconhecia o sítio, os prédios, a estação. Estava no mesmo sítio onde anos atrás tinha vindo com a Matilde, as duas sozinhas.
Olhando para trás, veio-me à cabeça a pessoa diferente que era nessa altura, como tanta coisa tinha já mudado dentro de mim.
A casa era muito gira, pequenina, mas bem arranjada e a pouca decoração com gosto.
Fechei a porta de casa, com uma sensação tão boa dentro de mim, ali estava eu sozinha e feliz. Como seria de prever para quem me conhece, corri para ver o mar, e que céu lindo estava, as nuvens deram uma trégua e abriram um espaço para que conseguisse ver o sol a pôr-se. Senti-me tão em paz, tão no meu lugar, tão perto do criador.
Ali, na praia e no Porto, senti o abraço da minha mãe de uma maneira tão mais forte.
A noite foi difícil, as janelas não tinham estores e havia demasiada luz no quarto toda a noite.
Fui para me encontrar, para estar só comigo e percebi que tinha muita vontade de estar com pessoas, comer uma boa refeição com risos e uma boa conversa, encher o coração de memórias, de partilhas, de gargalhadas.
Passei a manhã a pintar uma aquarela, pela primeira vez. E soube tão bem! Saí de lá com a minha pintura na mão e no coração o sentimento de ser capaz de tudo.
O resto do dia foi a caminhar pela cidade, ver os monumentos, e voltar a pé até casa. Estava tão conectada comigo, sentia que podia escutar o mais profundo de mim, estava muito cansada, mas feliz. Desta vez não me sentia solitária, não estava sozinha, estava comigo.
A noite foi mais difícil do que a anterior, talvez pelos programas que vi na televisão antes de me deitar. Não consegui dormir praticamente nada, e pela primeira vez na vida, senti mesmo medo.
Quem viaja sozinha pela primeira vez, e escolhe uma casa no rês do chão sem estores, só com umas cortinas que deixam ver as sombras da rua?! Eu, claro!
Apesar do pouco que dormi, acordei bem disposta. Depois da minha rotina matinal, saí para andar de bicicleta. O caminho junto ao mar é perfeito para isso.
Acabei por abandonar a ideia da bicicleta e caminhei a pé, pois queria ir até à ribeira e não sabia quando ia voltar, ou se tinha local para guardar a bicicleta, quando fosse almoçar.
Cheguei lá muito cansada, são duas horas a andar e o percurso a partir da foz não é muito bonito, o que não ajuda.
Apetecia-me sushi. Estava tão cansada que não procurei mais: fui a uma esplanada da Ribeira, foi caro e mau, um fiasco, não aconselho.
Subi para apanhar o metro, pois não me imaginava a fazer o caminho de volta e também queria ir pintar para a praia, não ia voltar a ter a oportunidade de estar tão perto da praia, cheguei, larguei tudo e fui pintar para a praia, foi incrível fiquei até ao por do sol.
E mais uma vez, tive a certeza, que o que quero para mim é viver assim, perto da praia.
Podia ser aqui. Quem sabe, no futuro. A praia tem um sítio grande para andar de skate e estavam a jogar Beach Ténis, que sempre foi a minha maneira de ténis preferida. Que saudades tenho! Só tive vontade de ir lá para dentro da areia jogar.
Sem dúvida, o melhor sítio para ficar no Porto é em Matosinhos. O acesso ao Porto é muito fácil pelo metro e é tão bonito que compensa. A viagem de metro do centro do Porto são 30 minutos, mais ou menos, mas acho que vale tanto a pena.
Há uma loja de plantas em Matosinhos, a Terrarea, que serve almoços, lanches e pequenos almoços. Muito giro, vale a pena conhecer.
A última noite foi mais tranquila, dormi um pouco melhor, embora não bem.
E tinha chegado a hora de partir, estava tão difícil voltar à vida real, aqui eu era a mulher livre e empoderada que sempre quis ser.
Regressei com a certeza de que estou muito bem sozinha, não preciso de ninguém ao meu lado para estar bem, feliz.
Uma das muitas tomadas de consciência que tive foi que preciso de um trabalho que me realize, que o que mais quero é ajudar mulheres, é transmitir o que sei, o que aprendi, sem isso não faz sentido viver.
Porto, dezembro de 2020
